Subscribe

  • Subscribe

A medida da paixão

Por Junior Lins | 17 Março, 2008 .

O Futebol começou a tomar forma na China Antiga, por volta de 3000 a.c.. O exército chinês treinava formando equipes com o objetivo de chutar as cabeças dos inimigos, levando-as para dentro de duas estacas fincadas no campo. No Japão Antigo, um esporte muito parecido se chamava Kemari: Num campo de 200 metros quadrados, a bola era de fibras de bambu e o contato físico era proibido. Os gregos jogavam o Episkiros: Soldados dividiam-se em duas equipes e jogavam num terreno retangular com bolas feitas de bexiga de boi cheia de areia. Quando os romanos dominaram a Grécia acabaram assimilando o Episkiros, porém o jogo tomou uma conotação muito mais violenta.

No século XVII, na Inglaterra, o jogo ganhou regras e foi organizado. O campo deveria medir 120 por 180 metros e nas duas pontas seriam instalados dois arcos retangulares chamados de gol. A bola era de couro e enchida com ar. Com regras claras e objetivas, o futebol começou a ser praticado por estudantes e filhos da nobreza inglesa. Aos poucos foi se popularizando. Em 1871 foi criado o goleiro. Em 1875, foi estabelecida a regra do tempo de 90 minutos e em 1891 foi estabelecido o pênalti. Somente em 1907 foi estabelecida a regra do impedimento.

O futebol só chegou no Brasil em 1894 com Charles Miller, mas em nenhum outro lugar ele se desenvolveu tanto como aqui. E não acho que foram as grandes contratações, os clubes bem estruturados ou as cores agradáveis dos times que fizeram o esporte virar a coqueluche nacional, motivo de orgulho e, mais atualmente, produto de exportação. O que fez o futebol se tornar capa dos jornais, programas de TV e destaque das conversas de botequim foram os torcedores. Mas precisamente a paixão destes torcedores.

A medida da paixão

Sou corinthiano e desde pequeno aprendi que se você quer torcer por um time, por mais unanimidade que ele seja no seu bairro, escola ou cidade, você vai sofrer por isso de uma forma ou de outra. Você aprende que precisa primeiro respeitar os outros times e seus torcedores, porquê uma hora é você quem irá recorrer a este respeito. E abusando do clichê “futebolístico”, nessa história de bola pra lá e pra cá tudo é uma caixinha de surpresa e o melhor time do mundo pode acabar perdendo pro pior.

De uma temporada para outra os jogadores, técnicos, comissões e diretores de um clube podem mudar, mas os torcedores estarão ali, firmes e fortes (alguns nem tão firmes e fortes).

Quando tinha 10 anos, depois de uma final entre Corinthians e Palmeiras, vencida pelos alvi-verdes, um grupo de palmeirenses, todos mais ou menos da minha idade, me cercaram na saída da escola e queriam me obrigar a dizer que o time deles era o melhor do mundo e a beijar a camisa do clube. Obviamente não o fiz, a paixão pelo meu time já estava correndo pelas minhas veias e eu faria qualquer coisa para defender a honra: não a minha, mas o do Corinthians.

Paixão, segundo a pesquisa que fiz na Wikipédia, é “um sentimento intenso que ofusca a razão.” Nada mais correto. Afinal, o que mais poderia me fazer esquecer que três garotos poderiam muito bem acabar comigo? O que mais poderia me ofuscar o fato de que aquele ato de nada influenciaria os jogadores ou o clube em si, aliás, que este ato não ganharia uma placa no hall da fama do time e nem me faria um corinthiano melhor que os outros? O que mais poderia fazer com que eu voltasse para casa cheio de hematomas e sangrando dos pontapés que levei por causa disso e mesmo assim me achando o máximo por ter me mantido fiel ao que eu acreditava?!

Futebol nos ensina muito mais do que regras e nomes de clubes. Futebol nos ensina a querer ser igual aos outros quando numa multidão que grita sobre uma só voz e nos faz querer ser aquele único, o cara que vai ser responsável por aquele gol salvador aos 46 do segundo tempo. Até hoje tenho certeza absoluta que minhas lágrimas, orações e gritos fizeram o Marcelinho Carioca furar o toque que recebeu da lateral esquerda e dar a bola pro Ricardinho fazer o gol que levou o Corinthians à semi-final do Campeonato Paulista. E quem vai dizer que não?

A medida da paixão

E se essa paixão não tem (ou pelo menos não demonstra) medo, também não são barreiras geográficas que a impede de enebriar os alucinados. Quando morava no Rio de Janeiro, meu pai me proíbia de ir ao Maracanã sozinho, até que o Corinthians foi jogar contra o Flamengo, e meus irmãos que são flamenguistas fizeram questão de ir, mas na hora de comprar o ingresso tive uma péssima notícias: todos os ingressos pra torcida visitante estavam esgotados! Não tive dúvida: Fui parar no meio da TJS (Torcida Jovem do Flamengo), com a camisa do Corinthians escondida dentro do short e ao lado de dois flamenguistas que sabiam minha identidade secreta dentro do ninho inimigo. Não importava que eu pudesse morrer ali, só queria ver o meu time jogar. Só queria poder ver os meus jogadores em campo, que podiam nem ser os melhores, mas eram os MEUS jogadores. Os que me representavam. Acabamos ganhando aquele jogo no Maracanã, mas eu, claro, não comemorei o gol que Luizão marcou no primeiro tempo.

Futebol também ensina a humildade. Hoje moro em Recife, e ano passado quando o Corinthians ainda era da primeira divisão, compareci a todos os jogos que fez aqui na capital pernambucana. Fui xingado por tudo e todos nas proximidades do estádios, mas demonstrando meu respeito ao time dono da casa, os torcedores do Sport e do Náutico entendiam que eu estava ali apenas paa ver o meu time jogar, e de certa forma respeitavam isso, mesmo que continuassem xingando. Os torcedores rivais não me agrediram e nem me fizeram sentir ameaçado em momento algum. Ah, e tenho que fazer uma ressalva aqui: Xingar no futebol já é parte da cultura de ir ao estádio, você pode achar medieval e eu não vou tirar sua razão, mas ninguém reclama também quando você cutuca o nariz e depois cheira. Cada qual com suas manias. E é óbvio que nem sempre este respeito acontece: no jogo contra o Santa Cruz recebemos cuspidas, ovadas e pedradas dos torcedores que já estavam dentro do estádio enquanto nós estávamos na fila. Não revidamos e a algazarra logo terminou, afinal, o que eles queriam, não conseguiram.

Confusões, brigas, mortes e tudo mais que envergonha e mancha de vergonha as torcidas são obras de gangues que se organizam, se unem e se combinam para isso e devem ser tratadas como bandos criminosos, não como torcedores. Pessoas que fazem parte de grupos como este já esqueceram a paixão pelo time e se apaixonaram há muito tempo pela violência e pela maldade, são como grupos sicilianos que se matam em troca de fama e poder. E tomara provavelmente acabarão como a maioria dos mafiosos: presos ou mortos.

Torcer por um clube de futebol, no Brasil, é um fato social. Você é bombardeado por tios, primos, pais e amigos desde bebê com as cores e hinos de centenas de clubes até que um dia você pode estar tomando sorvete ou vendo o jogo num estádio, não importa, algo mágico invade sua alma e te faz ver que você nasceu pra torcer por aquele time. Você vai gastar uma fortuna com camisas, pôsters, adesivos, ingressos, cd’s, flâmulas, chuteiras e até loterias, tudo para provar que é o maior torcedor do mundo e na verdade você só quer ser igual aos outros: um torcedor apaixonado.

Ser torcedor é colocar a paixão na frente da razão, querer fazer parte do todo sem, necessariamente, ser o tudo.

E tomara que assim continue! Para que nós possamos ver nos estádios, nas ruas, nos colégios e nas conversas de botequim as paixões se fortalecendo e as rivalidades nos divertindo, com cenas que nos fazem suspirar e lances que nos fazem arrepiar.

Os vídeos abaixo mostram o que é torcer, o que é viver por um time. Mostra as maiores torcidas do Brasil demonstrando o seu amor, mas reflete o que qualquer outra torcida, grande ou pequena, repete nos quatro cantos do país sem sair na TV ou nos grandes jornais. Paixão é paixão, independente das cores.

Este post faz parte do projeto “Blogagem Inédita” do Interney Blogs.

Leia Também:
  • Ratatouille
  • [Review] Os Simpsons - O Filme
  • Deixe um comentário...

    Para enviar um comentário, preencha os campos abaixo.

    Nome (Obrigatório)

    E-mail (Obrigatório)

    Site

    Comentários

    Fechar
    Envie por e-mail